Folha de Sala Rebentinhos’25 – Outubro

Memória, identidades e metamorfoses
Quando se é um rebento a fazer cinema, o impulso é, muitas vezes, olharmos à volta para aquilo que nos é mais familiar: pessoas e lugares que nos são próximos, a esfera íntima, os laços de amizade, a infância, a mãe, a avó… Uma tentativa de através da câmara recriar laços e cultivar memórias. O lado profundamente autobiográfico presente nos filmes desta sessão é reflexo disso mesmo: um gesto inaugural de autodescoberta, onde o cinema se torna uma extensão do próprio ser. Mais do que um exercício de memória, estes filmes configuram um cinema de reconhecimento, onde os autores contemplam o passado à procura de imagens que possam ser partilhadas, reconstruídas, salvas da erosão do tempo. São obras que oscilam entre o diário íntimo e a ficção poética, entre o testemunho e a invenção, revelando a permeabilidade entre o vivido e o imaginado.
Moja Mama, da polaca Agnieszka Popińska, é um filme delicado e divertido que, logo de início, explica ao que vem: “este é um filme sobre a minha mãe”. Uma carta de amor, escrita em imagens, de uma filha para a sua mãe que mistura uma animação simples e pueril com imagens de arquivo, propondo-se a contar uma história de vida, de relações, discussões e afetos. Ao inserir imagens de vídeo real, para além de ultrapassar o campo da animação, carrega o filme de uma camada nostálgica. Nas breves histórias que a narradora vai contando sobre a sua mãe, gera-se uma homenagem sincera a um amor incondicional. Dessa forma, dá-se origem à metamorfose de uma identidade à procura de desprender-se da referência maternal que a impede de seguir o seu próprio caminho. Um autêntico testemunho afetuoso de emancipação.
Se Moja Mama é um diálogo de uma filha com a mãe, Entre o Mar e a Ilha, de José Rodrigo Freitas, é o diálogo de um filho com o pai – um filho que se vê como uma ilha e que vê na figura do pai um mar de mistério. O filme é um ensaio autobiográfico de cariz documental, que orbita em torno de uma arqueologia afetiva e de uma analogia geográfica. Esteticamente impressionante, o convite é certeiro logo nos primeiros segundos, centrados na silhueta de um corpo masculino em contraluz com o azul intenso do mar, ao som da composição de Hanan Townshend, Water Theme no.3. Explorando a identidade insular do autor, proveniente da ilha do Faial nos Açores, o filme presta-se a um lado sensorial e contemplativo da fusão da paisagem com a memória, com vários momentos em que a música – que vai da voz melancólica de Zélia Freitas a cantar Amália, até ao eco etéreo dos Sigur Rós – é preponderante para a sensação imersiva. Um filme de tons azuis, que convida a um mergulho nas memórias do autor e nas suas relações afetivas.
Memória De Um Sonho, de Lou Loução, é um documentário composto por planos das ruas e casas de uma aldeia que servem de base à exposição de histórias e momentos que a realizadora vai lembrando. Igualmente narrado em voz-off, o filme assume-se como uma deriva melancólica pela persistência da memória e pelo passado que nos assombra. O filme é um confronto com as recordações de um Eu distante, que possivelmente já não existe, levando a uma reconfiguração da identidade e, nas palavras da autora, “uma metáfora sobre os laços que moldam vidas e lugares”.
Your Loving Mother, de Cristina Zar é uma breve mensagem de uma mãe para um filho que nunca teve. Uma reflexão sobre a maternidade e sobre as transformações que esse acontecimento – ou a sua ausência – imprime na identidade desta mãe em potência. Ao imaginar essa presença, o filme abre um espaço de escuta sobre possibilidades e impossibilidades, tornando-se um ensaio sobre a criação, o corpo e as dúvidas existenciais, atirando para cima da mesa uma série de ideias como, por exemplo, a não existência como dádiva.
Apesar da igual presença de um lado autobiográfico, Não Sei O Que Fazer Com As Mãos, de Marta Delgado, é o único filme desta seleção de curtas que realmente se enquadra numa ficção convencional. Através de um cuidado na composição dos planos e com um sólido grupo de personagens mulheres, este é um filme matriarcal que acompanha a jovem Matilde, quando esta se vê de regresso à aldeia da sua família devido à morte da sua bisavó. A partilha de memórias sobre a matriarca da família é o mote para reforçar os laços destas mulheres e a profundidade da história familiar. A estrutura narrativa mais clássica e o surpreendente trabalho com as atrizes são essenciais para a gravitas que o filme impõe sobre as questões da família e da herança afetiva. A morte da bisavó marca o fim de uma era e o regresso à aldeia torna-se um ritual de passagem para a vida adulta.
Todos estes filmes são marcados por um diálogo intrafamiliar, que vai de encontro a uma esperada metamorfose e a uma reconfiguração da identidade. A sensibilidade dos seus autores e o carácter autobiográfico fazem destes filmes poemas visuais sobre o afeto e a importância do passado na criação das nossas personalidades. O impulso que os move é o de uma viagem além-memória, onde a fragmentação da narrativa revela uma procura interior – uma forma de experimentar o cinema como gesto de reconciliação com esse passado. Esta sessão é, por isso, uma viagem por corredores íntimos e familiares, que revelam o poder das imagens para sublimar angústias, medos, traumas e inquietações. Um conjunto de olhares jovens que encontram na câmara não apenas um instrumento de registo, mas uma forma de reaprender a ver o mundo e a si próprios.
Ricardo Fangueiro
MOJA MAMA, 2024
Realização e animação AGNIESZKA POPIŃSKA Som WIKTOR SZYMURSKI Produtor MICHAL ZAWIASA
ENTRE O MAR E A ILHA, 2023
Argumento e Realização José Rodrigo Freitas Som JOSÉ RODRIGO FREITAS; DAVID FALCÃO Com ANTÓNIO FREITAS; GUILHERME NUNES; ZÉLIA FREITAS Legendas DIANA MOURA
MEMÓRIA DE UM SONHO, 2024
Realização LOU LOUÇÃO Produção FRANCISCO FREITAS LOU LOUÇÃO Som GABRIEL VAZ, MIGUEL PEREIRA, LOU LOUÇÃO Montagem LOU LOUÇÃO
YOUR LOVING MOTHER, 2024
Argumento e Realização CRISTINA ZAR Com DAISY MARSH E LUKE MCARTHUR Diretor de Fotografia CSABA KONDOR
NÃO SEI O QUE FAZER COM AS MÃOS, 2024
Realização MARTA DELGADO Argumento MARTA DELGADO LUÍS MIGUEL ROCHA Assistente de Realização LUÍS MIGUEL ROCHA Diretora de Produção LEONOR GUISE Chefe de Produção SARA TAVARES Diretor de Fotografia PEDRO SIMÕES Assistente de Câmara JOANA AFONSO Som TOMÁS GERALDO, MARIA GERALDES, MARTA OLIVEIRA Montador e Anotador JOSÉ PEREIRA

