Folha de Sala Rebentos’25 – 29 Novembro

Sessão programada pelos alunos da Escola Secundária Leal da Câmara: Guilherme Luis, Filipe Ribeiro, Henrique Silva e Miguel Mata
Há pouco mais que oito meses entrámos na Escola Secundária Leal da Câmara e desafiamos uma turma de 11º ano com uma nova forma de ver cinema. Demos-lhes a conhecer o que é programar cinema, porque o fazemos e que coisa é esta de um ciclo de cinema. O que é o Rebentos? Propuse- mos-lhes que não pusessem o seu gosto de parte, que atentassem ao que sentiam ao ver os filmes e que procurassem ligações. Que se ligassem aos filmes por aborrecimento, angústia, medo, conforto, paixão; que os ligassem uns com os outros e com a vida que os rodeia. E, no fim, pedimos que tomassem uma decisão corajosa, de desafiar outros a fazer o mesmo, escolhendo apenas alguns e programando esta sessão de cinema.
Agora voltemos então a esse momento, na sala de aula, em que os alunos decidiram juntar estes filmes, sem limitarmos a sequência escolhida a um conjunto de aspetos comuns. Aceitemos este desafio, de que há na relação entres estes quatro filmes algo a mais do que em cada um.
Começamos no Alto de São João, com imagens de agora que mais parecem de outrora e que, não inocentemente, tal a voz que acompanha, evocam um outro lugar. O êxodo rural nos anos vinte do século XXI, pelas rodas de uma bicicleta que descobre a cidade de Lisboa como quem procura o passado. Este êxodo moderno não é o dos nossos avós, deslocados há muito em busca de trabalho e de uma vida melhor. É antes uma nova geração que viaja para estudar no ensino superior, para aprender coisas inúteis, sem saber o que vai fazer da vida.
Uma viagem um tanto diferente é a de Kitty, que sendo inglesa em Itália, viaja pela distância, e vê nisso o conforto de uma fuga anónima para um lugar que não compreende. Se os nossos avós fugiam da guerra, saíam para procurar trabalho, porque viajam Miguel e Kitty? E o que sentem fora de casa, será o mesmo?
Do pop nostálgico no Alto da Eira, seguimos para um outro confronto entre passado e presente num filme (aparentemente) autobiográfico de Lourenço Pinheiro. Um tanto menos leve que os anteriores, marca uma transição nesta sessão, que caminha mais para o passado. O VHS volta a aparecer, agora com imagens de uma rapariga a crescer. Lembram-nos das nossas infâncias, das nossas famílias, dos batizados, dos aniversários, das brincadeiras nos parques e nas piscinas e ganham um enorme peso aos sete minutos, num confronto entre um mesmo perfil, que ressignifica tudo o que vimos para trás. Não são como as filmagens da handycam de Miguel, já que aqui de nostalgia há pouco, tal a força que o presente exerce sobre estas memórias. Os registos em VHS de Lourenço parecem de uma realidade paralela, uma ferida revisitada no presente. E aquilo que me salta de imediato para o pensamento é: quem és tu?
Viajar é um processo de fragmentação. Em cada novo local existimos outra vez, nunca iguais. A romantização desta viagem é a descoberta, a aventura. A des-romantização é a perda do nosso lugar. A crise de identidade. Se em Kitty e Miguel essa viagem é literal e essa identidade é posta em causa num local desconhecido, no caso de Lourenço falamos de uma travessia no tempo. Um passado incompatível com o presente, um lugar diferente.
Continuamos esta viagem no tempo com outro tom, mas também em busca de uma identidade. Em Rio Torto viaja-se para o passado através das histórias de moleiros. Quem vê as fotografias do rio, pouco ou nada reconhece mais que a água que por lá corre, nas filmagens que lhes seguem. O rio viu-se desfigurado com o tempo, deixando para trás as suas águas cristalinas e toda a comunidade que dele dependia. Por lá já não se mói a farinha, nem se lava a roupa, e a água cheia de espuma das fábricas a montante não chama nem os peixes para um mergulho. Deste rio já só resta a memória, revisitada porventura por um bisneto de um dos seus moleiros, um “Miguel” desta história, que, depois de estudar cinema em Lisboa, voltou ao Norte para filmar um rio.
Nuno Cintra
ALTO DA EIRA, 2023
Realização, Montagem e Direção de Arte TOMÁS GUEDES Produção FRANCISCO MIGUEL Imagem FRANCES COSTA Som Stephanie Kyek
BULLSEYE, 2024
Realização, Produção, Argumento FRANCISCA BORGES Produção ERIK SCARSELLA Música ERIK SCARSELLA Imagem NOAH ZÁBORSZKY Montagem FRANCESCA LIVI Som ANTONIO STELLA, NICOLA SIDDI, FRANCESCO BUTTINELLI, ELEONORA MAIOLINO, ANTONIO STELLA, LETIZIA ZAGO, LEONARDO RASPOLLI Com COCO MAERTENS, MARK AGAR, ELENA ORSINI, GIORGIO MONTALDO
REGISTOS, 2021
Realização, Montagem LOURENÇO PINHEIRO Mistura de Som Filipe Adubeiro
RIO TORTO, 2019
Realização MÁRIO VELOSO Produção HENRIQUE FIALHO Música ERIK SCARSELLA Imagem BRUNO REIS OLIVEIRA Montagem LUÍS MATOS Som LEONARDO MIRANDA

