Folha de Sala Rebentos’25 – 15 Novembro

MONSTROS, DEMÓNIOS E O COMBATE À SOLIDÃO
A palavra monstro vem do latim “monstrum” que significa algo estranho ou antinatural. O monstro é aquele que foge à vivência natural, que se destaca, que difere, e que, por isso mesmo, é, tantas e tantas vezes, associado a um prenúncio do mal. Se o que é visto como normal, nos dias de hoje, por acaso não fosse, o que é visto como monstro hoje podia ser visto como normal e o normal como monstro. Isto para dizer, que um monstro não é nada mais do que algo normal que, muitas vezes, é mal interpretado ou parece não ter lugar no senso-comum e na interpretação da sociedade atual. Em Monster*, de Asier Elgars, somos interpelados com a seguinte observação: “Como não ser um monstro se a minha identidade não é entendida?”, e a verdade é que é um pouco daqui que parte esta ideia de monstruosidade, de um conjunto de criaturas à margem de uma sociedade, que ela mesma as colocou nessa margem. É este mini ensaio experimental espanhol que nos atira logo para o centro do debate sobre o que pode ser o monstro, não só conceptualmente, mas objetivamente na nossa sociedade e é com ele em mente que iremos partir para os outros filmes da seleção. Com estas ideias e referências em mente, é muito mais fácil o espectador entrar no ambiente da ala psiquiátrica do hospital da Salpêtrière, em Orchid in a Frenzy, de Elisa Andrade Fonseca, filme que não deixa de ter um cunho extremamente biográfico, como o primeiro, apesar de Monster* ser sobre um eu presente, o autobiográfico, e este ser sobre uma personalidade histórica distante, Jane Avril, bailarina e prostituta famosa nascida no final do séc. XIX. A animação alemã, de Elisa Andrade Fonseca, navega pessoalmente nesta história, apesar da sua curta duração, e fala-nos da doença de São Vito, um distúrbio neurológico que causa movimentos involuntários do corpo que se parecem com dança. O próprio filme dança com o espectador e mostra a aflição que viviam estas (pois eram na maioria das vezes mulheres) doentes mentais que eram vistas quase como animais num circo ou num jardim zoológico. Este jogo dançado também está presente em Fur Change, de Lioba Schmidt, mas, neste caso, entre uma mulher e o rato que habita a sua casa. Aqui, o monstro será o rato ou a própria mulher? Acho que ao longo do filme vamos percebendo que não há monstro nenhum e muitas vezes os demónios são psicológicos e habitam a nossa própria mente (não de forma tão explícita como na doença mental mas também nas próprias inseguranças da vida). A protagonista de Fur Change é uma mulher insegura com os pelos do seu próprio corpo, mais particularmente, com a presença destes durante as suas relações sexuais. O rato aparece como uma metáfora para esta relação de aversão com uma coisa que é tão natural como a penugem, e, à medida, que a sua relação com esta penugem se vai normalizando também vai crescendo uma relação de carinho e amizade entre ela e este rato que tanto a perturbava no início do filme. Fur Change é uma demonstração de como é possível combater os demónios interiores, superar e desconstruir o monstro e deixar de o ver como tal. Um monstro, em pouco tempo, pode simplesmente deixar de o ser.
Logo a seguir chega-nos a estranheza de Finimondo, do português João Sanchez. Finimondo significa, numa abordagem mais literal, fim do mundo e, numa abordagem mais literária, caos, pandemónio e grande confusão. É um termo ligado a lendas antigas e a presságios onde se evocava o fim. O mar, presente no filme, encaminha-nos para histórias de marinheiros que, numa situação de perigo, se veem perto da morte e do fim do seu mundo. Nestas alturas, estes marinheiros começavam a delirar com fenómenos óticos, que é um pouco o que nos traz Sanchez neste pequeno exercício experimental. Um filme onde a coreografia e a dança também estão presentes, mas onde estas remetem para ambientes místicos e espirituais como no Farol de Robert Eggers e nos convidam para a segunda metade desta sessão, mais sombria e mais vincadamente sobre a morte e sobre o fim. O Abafador, de Silvana Torricella, tem como personagem principal Vicente, um homem que ganha a vida a terminar com a vida daqueles que estão em estado terminal. Uma personagem de caráter ambilateral, que para uns pode ser visto como vilão, o “monstro” do seu filme, para outros como salvador, aquele que retira o sofrimento dos outros. Este é um filme que nos traz mais perguntas do que soluções. Não há um lado bom, não há um certo e um errado. Mas, sobretudo, é um filme sobre fim e sobre não estar só neste fim, sobre ter alguém que não nos quer deixar sofrer mais. O que acaba por contrastar com o próprio protagonista em si, que é o único que não está perto do fim mas o que está mais sozinho deles todos, é uma personagem completamente à margem, completamente sozinha, e que, na verdade, nem sequer pode ser ninguém devido ao cariz da sua profissão. Todavia o filme parece querer dar-nos um breve relance esperançoso para esta personagem que encontra noutra personagem solitária talvez o começo de uma amizade. My Body Covered With a Handful of Earth, de Maria Plucińska, é um filme silencioso, onde pouco acontece, mas onde o pouco que acontece é suficiente para fechar uma sessão inquietante. Freiras procuram o melhor lugar para deixar um corpo, segundo as próprias indicações deste corpo. Um poema visual sobre morte e sobre o combate à solidão que acompanha essa morte. A única coisa que sabemos é que este corpo pertence a uma outra mulher, que só quer descansar e não quer ficar só. Mais uma vez aqui, o tema da solidão, que não parece óbvio mas que acaba por unir quase todos os filmes desta sessão. Uma das freiras encosta o ouvido ao ventre deste cadáver e recebe as indicações que este vai dando sobre os diferentes solos onde vão pisando. É, sobretudo, um filme sobre compaixão e sobre amor. Sobre combater os monstros, os demónios, ouvir os espíritos e libertá-los dos seus medos e deixá-los descansar em paz. Porque, no final de tudo, somos todos iguais, todos apenas corpos que querem descansar e não estar sós. Um monstro é alguém só, à margem, largado, que não se identifica com o outro, a partir do momento que cria esta identificação, que encontra no outro um pouco de si, deixa de estar só e deixar de ser monstro.
Inês Moreira
MONSTER*, 2024
Realização e edição ASIER ELGARS
ORCHID IN A FRENZY, 2024
Realização ELISA ANDRADE FONSECA Som ALOïS BENOIT Cantora MÉLANIE GUERIMAND Músicos TOMOMI HIRANO, CÉCILE GALY Com CATHERINE BARRADEL, MÉLANIE GUERIMAND, FÉLICIEN BOUCHOT, ALOïS BENOIT, ELISA ANDRADE FONSECA, THE AMAZING KEYSTONE BIG BAND
FUR CHANGE, 2024
Realização LIOBA SCHMIDT Com DAPHNE OBERHOLZER, FLEUR, MARC STECHLING Fotografia MUSTAFA KHALAF Som MIRIAM SCHLUNKES Iluminação KATHARINA SIEMELING Direção de Arte LOU VIANDEN, BEN WALLBRECHER Montagem MARISOL B.LIMA Mistura de Som RAOUL MORALES-MARQUEZ Correção de Cor LYNN AL-ABIAD Suporte de Animais SAMIRA MORA SOSA
FINIMONDO, 2023
Realização JOÃO SANCHEZ Coreografia JOÃO SANCHEZ, SOFIA KAFOL E MARIA ABRANTES Produção PAGÁRRENDA Assistente de Produção FRANCISCO LOBO DE ÁVILA Pós-Produção JOÃO SANCHEZ
O ABAFADOR, 2023
Realização, Argumento e Montagem SILVANA TORRICELLA Produtor Executivo GORDON POLLOCK Diretor de Produção NORBERTO VALENTE Diretor de Fotografia RAFAELA GOMES Som LUÍS SILVEIRA Diretora de Arte SARA PESTANA Correção de Cor STEPHANE SAGAZ Música Original ST. JAMES PARK Com JOÃO CACHOLA, MARIA LEITE E JORGE MOTA
MY BODY COVERED WITH A HANDFUL OF EARTH, 2024
Realização e Argumento MARIA PLUCINSKA Assistente de Realização MICHAł DOROSZENKO Produção IWA PAWLAK Assistente de Produção ANDZELIKA KLIS, MICHAł HARAT Diretora de Fotografia LENA JABION SKA Correção de Cor LENA JABłONSKA Música e Mistura MICHAł DOROSZENKO Makeup KAMA SIWEK Com ALEKSANDRA SIERPIEN, EMILIA NIEDZIELAK, KAROLINA KLICH, JUSTYNA KARCZMAREK

